domingo, 24 de fevereiro de 2013

Contextualizando a Antropologia


  
                                                                                                                           Silva, Tamara Vieira da
 Introdução 

      A partir das mudanças do mundo globalizado Neusa Gusmão inicia o seu texto nos conduzindo a uma reflexão acerca da relação contraditória entre a mundialização da cultura e afirmação de suas particularidades. No entanto, a autora demonstra que essa relação entre diversidade e cultura não é uma discussão específica às sociedades modernas, embora se intensifiquem nessa época. A partir de então novos questionamentos são feitos às formas de constituição do saber, mas isso aconteceu também devido à insuficiência explicativa de algumas teorias tradicionais, no debate em questão da antropologia. Discute-se também qual a finalidade da antropologia enquanto ciência diante dessas diferenças sociais e por fim  a autora nos propõe um resgate do conceito de cultura como uma questão política. Nesse resgate a autora lembra através de Paula Montero (2003) dois conceitos básicos para o estudo da antropologia durante todo o seu percurso científico, o conceito de cultura e de homem. Há ainda como algo natural à antropologia o trabalho de descrever e classificar os grupos sociais diferenciados de alguma forma, assim a marca da antropologia clássica tornou-se a descrição e classificação que se fazia dos povos primitivos que faziam parte do processo civilizatório entre os séculos XIX e XX. Sendo assim havia dois princípios centrais que constituíam o campo antropológico dessa época, a exterioridade e a alteridade, os quais eram vistos como características inferiores aos povos já colonizados. Dentro dessa esfera de discussões mais ampla, insere-se um domínio específico de estudos a antropologia da educação. Já que a antropologia trata dessas classificações no que se refere à educação ela irá propor intervenções nos sistemas educacionais no intuito de “normatizá-los” em busca de uma função social para estes a partir de um  modelo “desejável” de escolas. No entanto, tal padronização se dava enquanto busca não só nos parâmetros educacionais, mas em todas as relações que envolviam o indivíduo e a sociedade, de uma maneira compreensiva do sujeito como um ser social detentor de particularidades. Surge então, no final dos anos 90, um movimento denominado “crise dos paradigmas” que se estende por todo o século XX, trazendo a tona o chamado “estudos culturais”. Essa corrente tem relação com um fato incontestável das sociedades modernas a multiculturalidade e o modo a se pensar e atuar a partir deste fato estava nas “mãos” do multiculturalismo, o campo que estudava essa característica social a partir da teoria e prática. A partir de então com a revisão do conceito de cultura ela não seria mais vista desvinculada das relações políticas e de poder, visando por em evidência a real proposta antropológica de superação teórica e prática.

A  Ciência que praticamos : A modernidade em debate 
      A cultura enquanto conceito revisado insiste na ideia de que sua definição e seu estudo não devem ser pautados sem levar em consideração suas relações políticas, já que a cultura se inscreve em relações humanas que têm como essência a questão da diferença, o envolvimento do eu e do outro. Dessa forma trata-se de relações onde há desigualdades, expressando muitas vezes relações de poder imersas em um campo político específico que deve ser levado em consideração. Objetivando estudar essas relações de poder está sendo desafiada a estabelecer “pontes” entre o universal e o particular, partir daquele para cegar neste, de um modo que sejam compreensivas os processos em seus contextos históricos. 
O caminhar entre dois séculos XIX ao XX
     Durante o período entre esses dois séculos XIX e o XX o parâmetro teórico que “norteava” a antropologia e a pedagogia era o evolucionismo. A pedagogia interferia na educação através de determinações práticas baseada no modelo de ensino ocidental, branco e cristão. A educação resumia-se ao processo de ensino. Dentro da perspectiva evolucionista a cultura só era tida como relevante a partir do ponto de vista classificatório diante das etapas de desenvolvimento e progresso humano. No entanto, F. Boas irá questionar o pai do evolucionismo L. Morgan contrapondo-o e afirmando que não há uma só cultura, mas sim uma  diversidades delas e que cada costume ou hábito, para ser compreendida, deve ser relacionada com o contexto cultural em que está inserida. Essas críticas feitas ao evolucionismo trouxeram a tona o conceito de alteridade – “o outro está no meu mundo e existe em relação a ele” – que explicou a condição humana de ser pensada no interior de sua cultura. “Cultura como realidade múltipla, plural e diversa.” Os estudos culturais terá vínculo entre os anos 20 e 30 com a concepção funcionalista dos sistemas sociais, o que quer dizer que cada “parte” social exerce sua função fazendo parte de um todo social interligado por suas funções. A partir dessa concepção a cultura passa a ser vista como um todo integrado por partes que não podem ser apreendidas separadamente, e que tem como função suprir as necessidades individuais a partir de instituições sociais, dentre elas a escola. Ainda assim, as perspectivas culturalistas e funcionalistas não conseguiam abranger as questões políticas que envolvem as relações de poder, para que essas relações fossem, de fato, percebidas deveria haver um “encontro face a face” com o outro. Ou seja, adentrar o mundo do outro permitia ao fazer antropológico um contato direto com a real situação do objeto em estudo, de uma maneira que o estranhamento de ambos – antropólogo e objeto – se tornaria a iniciativa fundamental da investigação. Tendo por base essa relação duas outras correntes baseiam esses estudos o estruturalismo e o marxismo. Essas duas novas correntes possibilitaram uma reflexão mais crítica e compreensiva da realidade social, superando a análise culturalista, não só como proposta acadêmica, mas também como movimento político.
 Antropologia, Estudos Culturais e Educação

     Durante o percurso do seu desenvolvimento científico a antropologia “caminhou” à afirmação da diversidade humana e ao relativismo. Já a educação centrou-se na busca por universais humanos, valores e ideologias. No entanto, nos anos de 1950/1960 houve um movimento de ruptura que desencadeou numa passagem das Teorias do equilíbrio para as Teorias do conflito. A reflexão então passa a ser pautada pela relativização e comparação das realidades sociais, a cultura é tomada por um significado para além das simbologias, alcançando sua estrutura de mediação num contexto relacional. A antropologia passa então a considerar o indivíduo como sujeito social, porém com a subjetividade construída por elementos significativos. Dentro de esse contexto a educação passar a buscar maneiras de agregar essas diferenças culturais atribuindo à pedagogia que métodos utilizar para alcançar determinado fim.

Da Antropologia e dos Estudos culturais: a questão da Educação e da Escola
            A escola que vinha ao longo de sua história buscando formar “cidadãos”, homogeneizar sociedades, depara-se agora com o desafio de acolher as diversidades culturais e interagir com elas de forma pacífica, relacionando a multiculturalidade com a formação dos professores, preocupação essa que iniciou no final do século XX. Como articular valores particulares e gerais? Como partir de um extremo para o outro? O multiculturalismo então irá atentar para a necessidade de aceitação e respeito das diferenças no interior de um contexto político comum, garantindo assim, já que estamos falando de democracias, a liberdade de expressão particular. No entanto, para que se efetive algo além da prática reflexiva é preciso que avancemos a prática do reconhecer para o conhecer o outro.Percebê-lo a partir de um olhar compreensivo de sua cultura enquanto dinâmica, explicativa, permitindo que esse universo que me é estranho exista e faça parte de uma cultura majoritária.





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