Silva, Tamara Vieira da
Introdução
A partir
das mudanças do mundo globalizado Neusa Gusmão inicia o seu texto nos
conduzindo a uma reflexão acerca da relação contraditória entre a mundialização
da cultura e afirmação de suas particularidades. No entanto, a autora demonstra
que essa relação entre diversidade e cultura não é uma discussão específica às
sociedades modernas, embora se intensifiquem nessa época. A partir de então
novos questionamentos são feitos às formas de constituição do saber, mas isso
aconteceu também devido à insuficiência explicativa de algumas teorias
tradicionais, no debate em questão da antropologia. Discute-se também qual a
finalidade da antropologia enquanto ciência diante dessas diferenças sociais e
por fim a autora nos propõe um resgate
do conceito de cultura como uma questão política. Nesse resgate a autora lembra
através de Paula Montero (2003) dois conceitos básicos para o estudo da
antropologia durante todo o seu percurso científico, o conceito de cultura e de
homem. Há ainda como algo natural à antropologia o trabalho de descrever e
classificar os grupos sociais diferenciados de alguma forma, assim a marca da antropologia clássica tornou-se a
descrição e classificação que se fazia dos povos primitivos que faziam parte do
processo civilizatório entre os séculos XIX e XX. Sendo assim havia dois
princípios centrais que constituíam o campo antropológico dessa época, a exterioridade e a alteridade, os quais eram vistos como características inferiores aos
povos já colonizados. Dentro dessa esfera de discussões mais ampla, insere-se
um domínio específico de estudos a antropologia
da educação. Já que a antropologia trata dessas classificações no que se
refere à educação ela irá propor intervenções nos sistemas educacionais no
intuito de “normatizá-los” em busca de uma função social para estes a partir de
um modelo “desejável” de escolas. No
entanto, tal padronização se dava enquanto busca não só nos parâmetros
educacionais, mas em todas as relações que envolviam o indivíduo e a sociedade,
de uma maneira compreensiva do sujeito como um ser social detentor de
particularidades. Surge então, no final dos anos 90, um movimento denominado “crise dos paradigmas” que se estende por
todo o século XX, trazendo a tona o chamado “estudos culturais”. Essa corrente
tem relação com um fato incontestável das sociedades modernas a
multiculturalidade e o modo a se pensar e atuar a partir deste fato estava nas
“mãos” do multiculturalismo, o campo que estudava essa característica social a
partir da teoria e prática. A partir de então com a revisão do conceito de
cultura ela não seria mais vista desvinculada das relações políticas e de
poder, visando por em evidência a real proposta antropológica de superação
teórica e prática.
A Ciência que praticamos : A modernidade em debate
A
cultura enquanto conceito revisado insiste na ideia de que sua definição e seu
estudo não devem ser pautados sem levar em consideração suas relações
políticas, já que a cultura se inscreve em relações humanas que têm como
essência a questão da diferença, o envolvimento do eu e do outro. Dessa
forma trata-se de relações onde há desigualdades, expressando muitas vezes
relações de poder imersas em um campo político específico que deve ser levado
em consideração. Objetivando estudar essas relações de poder está sendo desafiada
a estabelecer “pontes” entre o universal e o particular, partir daquele para
cegar neste, de um modo que sejam compreensivas os processos em seus contextos
históricos.
O caminhar entre dois séculos XIX ao XX
Durante o período entre esses dois séculos
XIX e o XX o parâmetro teórico que “norteava” a antropologia e a pedagogia era
o evolucionismo. A pedagogia interferia na educação através de determinações
práticas baseada no modelo de ensino ocidental, branco e cristão. A educação
resumia-se ao processo de ensino. Dentro da perspectiva evolucionista a cultura
só era tida como relevante a partir do ponto de vista classificatório diante
das etapas de desenvolvimento e progresso humano. No entanto, F. Boas irá questionar
o pai do evolucionismo L. Morgan contrapondo-o e afirmando que não há uma só
cultura, mas sim uma diversidades delas
e que cada costume ou hábito, para ser compreendida, deve ser relacionada com o
contexto cultural em que está inserida. Essas críticas feitas ao evolucionismo trouxeram a tona o
conceito de alteridade – “o outro
está no meu mundo e existe em relação a ele” – que explicou a condição humana
de ser pensada no interior de sua cultura. “Cultura
como realidade múltipla, plural e diversa.” Os estudos culturais terá
vínculo entre os anos 20 e 30 com a concepção funcionalista dos sistemas
sociais, o que quer dizer que cada “parte” social exerce sua função fazendo
parte de um todo social interligado por suas funções. A partir dessa concepção
a cultura passa a ser vista como um todo integrado por partes que não podem ser
apreendidas separadamente, e que tem como função suprir as necessidades
individuais a partir de instituições sociais, dentre elas a escola. Ainda
assim, as perspectivas culturalistas e funcionalistas não conseguiam abranger
as questões políticas que envolvem as relações de poder, para que essas
relações fossem, de fato, percebidas deveria haver um “encontro face a face”
com o outro. Ou seja, adentrar o mundo do outro permitia ao fazer antropológico um contato direto
com a real situação do objeto em estudo, de uma maneira que o estranhamento de
ambos – antropólogo e objeto – se tornaria a iniciativa fundamental da
investigação. Tendo por base essa relação duas outras correntes baseiam esses
estudos o estruturalismo e o marxismo. Essas
duas novas correntes possibilitaram uma reflexão mais crítica e compreensiva da
realidade social, superando a análise culturalista, não só como proposta
acadêmica, mas também como movimento político.
A Antropologia, Estudos Culturais e Educação
Durante o percurso do seu desenvolvimento
científico a antropologia “caminhou” à afirmação da diversidade humana e ao
relativismo. Já a educação centrou-se na busca por universais humanos, valores
e ideologias. No entanto, nos anos de 1950/1960 houve um movimento de ruptura
que desencadeou numa passagem das Teorias
do equilíbrio para as Teorias do
conflito. A reflexão então passa a ser pautada pela relativização e
comparação das realidades sociais, a cultura é tomada por um significado para
além das simbologias, alcançando sua estrutura de mediação num contexto
relacional. A antropologia passa então a considerar o indivíduo como sujeito
social, porém com a subjetividade construída por elementos significativos.
Dentro de esse contexto a educação passar a buscar maneiras de agregar essas
diferenças culturais atribuindo à pedagogia que métodos utilizar para alcançar
determinado fim.
Da
Antropologia e dos Estudos culturais: a questão da Educação e da Escola
A
escola que vinha ao longo de sua história buscando formar “cidadãos”,
homogeneizar sociedades, depara-se agora com o desafio de acolher as
diversidades culturais e interagir com elas de forma pacífica, relacionando a
multiculturalidade com a formação dos professores, preocupação essa que iniciou
no final do século XX. Como articular valores particulares e gerais? Como
partir de um extremo para o outro? O multiculturalismo então irá atentar para a
necessidade de aceitação e respeito das diferenças no interior de um contexto
político comum, garantindo assim, já que estamos falando de democracias, a liberdade
de expressão particular. No entanto, para que se efetive algo além da prática
reflexiva é preciso que avancemos a prática do reconhecer para o conhecer o
outro.Percebê-lo a partir de um olhar compreensivo de sua cultura enquanto
dinâmica, explicativa, permitindo que esse universo que me é estranho exista e
faça parte de uma cultura majoritária.
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